quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Noite

Difícil é dormir e sozinho estar
de olhar para o lado
e nada ver

Um nome para dizer, para pensar...
Que traz tanto prazer
só de por um minuto
eu por-me a relembrar

Diga como quiser
mas sou privilegiado
por isso sentir
de ficar desorientado
enquanto estou a sorrir

Nada é tão bom
nada faz tão bem ao coração
de pegar no sono
sentindo o que significa a palavra "paixão".

sábado, 24 de novembro de 2012

Um dia

Saudade do seu beijo

Aquele que deixou meus lábios a querer mais
Ficou marcado em minha boca
O teu sabor
A lembrança do teu sorriso
Quando nos olhamos pela última vez
e demos nosso último riso
Daquele momento mágico que se fez

De olhar no fundo dos teus olhos
Da certeza que ali tive, daquele dia
Que as vezes me pergunto se era fantasia
Mas não...

Eram marcas que ficaram no meu coração.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Confissões - Parte IV

 Um breve adendo de alguém que me olhava enquanto percorria meu caminho diante da Luz. Quem nunca tive contato até então. Só agora após seu relato profundo pude ter noção de como era andar a passos largos carregando um fardo do qual queria ter me livrado. Pensei que estava cansado, mas não, era o peso da consciência que me atormentava, invisível à um olhar físico, mas explícito para aqueles que sabem que nada mais rege a vida de um homem  a não ser sua própria consciência.



"E ele finalmente percebeu que seu maior medo não era o ato, mas sim o pesar moral de sua promessa, de dizer e alegar uma falsidade para a pessoa que ele amava, finalmente ele via  como isso deixava-o moralmente conturbado, de olhar nos olhos de sua amada e agir friamente, finalmente com uma canção tão bela e graciosa ele pode deixar isso ir embora, sua alma estava purificada, sua dívida estava paga. Ele abriu a janela de seu coração para a felicidade, iluminada ela foi, próspera como o vento que trouxe a firmeza em sua decisão, um novo homem nascia, apto a cumprir com sua palavra, pronto para nunca mais dizer em vão suas promessas. Desse momento em diante sua vida floresceu, seu peito abriu, pronto para acolher aquilo que ele disse de outrora com tanta veemência. Seus olhos brilhavam pelo canto melífluo que circundava esse pobre ser arrependido que carregava sua desgraça em suas costas, por fim isso trouxe sua felicidade."

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Confissões - Parte III









Meu caminho é longo, vasto, e certas vezes quando olho para o lado vejo figuras entre as árvores que parecem me atentar, querem me deixar assustado com o que está por vir.  Parecem querer que meus passos desandem. Sei que não posso me submeter a tal fraqueza por mais que elas tentem usar qualquer artifício para me convencer de sua verdade,  quando olho bem em seus olhos eu vejo que são como emissários da solidão, querendo me trazer de volta para aquela prisão que ela rege com sua adaga e que pretende novamente perfurar meu coração fazendo dele um sofrimento perpétuo. Quando volto a olhar para o caminho que preciso seguir vejo a luz enaltecer seu brilho e retomar minha atenção, sigo assim, guiado por ela, que me faz tão bem que mesmo distante ainda está lá me esperando, não posso olhar para os lados, pois lá só minha tormenta espreita. Como é portentosa essa luz que brilha no horizonte, como fico feliz de saber que ela veio e está a me aguardar, meus olhos se enxem de lágrimas oriundas dessa sensação que exulta meu coração, sinto-me vigoroso, disposto a passar por tudo para em seu fulgor me acolher. Ela está próxima, consigo sentir dentro do meu peito, é como ela já estivesse dentro dele me proporcionando tamanho bem estar, recordando-me do passado ela me faz criar asas, como um anjo visitando o céu, tão lindo e puro. Diferente do lugar que por um momento achei que suplicaria pela eternidade.

Confissões - Parte II









O tempo passou... Quando pensei que finalmente iria dar um último suspiro, depois de tanto padecer sobre a sombra que me cercava e de lá me fazia um desditoso prisioneiro de sua própria vontade, algo aconteceu. Depois de muito sofrimento passei a ver um caminho guiado pela luz que me tirou dessa escuridão, passei a ver como a luz da esperança é refulgente ao trazer do abismo uma alma estropiada que lá pensou que jamais sairia, cercada de demônios que a faziam sofrer pelo preço da solidão. Aos poucos pude me levantar, erguer a cabeça e por fim, caminhar. Passei a recompor-me aos poucos, motivado por essa magnificente inspiração que guiava meus passos por esse caminho que me tirava do meu pesadelo e fazia com que as noites - de outrora não dormidas - fosse regadas por sonhos harmoniosos que traziam os anjos que pensei nunca mais ver. A aparência de um homem que pensava ter arrancado do seu peito o coração  - de uma maneira sobremística - para aliviar o peso que nele caia todas as noites, agora exultavam um sorriso, uma motivação. Nela pude ver como é doce o prazer da alegria, estava disposto a nunca mais voltar para aquele lugar horrendo, cheio de espectros que se mortificavam em minha mente quando o sol se punha. Meus passos se tornavam mais rápidos, a luz ficava cada vez mais cintilante, eu queria chegar perto dela, vê-la resplandecendo em meu rosto, meu coração tornava a bater novamente, depois de um período que cada vez que sentia-o pulsar era como uma faca encravada em meu peito.

Confissões - Parte I




Difícil era sentir o peso da solidão, de passar noite após noite olhando para o espelho e se perguntando até quando esse male se perpetuará sobre minha pessoa. Infelizmente a cada vez que nele olhava eu não encontrava respostas, no fundo dos meus olhos nada mais enxergava. Era incerto, obscuro. Cada vez que deitava em minha cama diálogava afim de no fundo da minha alma uma resposta encontrar, mas do que vale fazer perguntas se não há voz que possa dar resposta. As noites eram sem fim, um martírio que ficava preso dentro do meu coração, por mais que eu tentava esquecê-lo, eu sabia que lá ele estava. Toda essa situação assumia a forma de um fantasma, que sempre aparecia enquanto estava sozinho,e para minha tormenta as visitas eram  regulares, tentava passar o maior tempo possível longe disso, queria me ausentar do meu quarto, pois lá sabia que em um breve espaço de tempo ele bateria na porta e entraria. Por mais que colocasse barreiras para evitar o contato, era inevitável, pois ele sabia que solitário estava, não tinha como fugir, nada poderia ser feito. Assim ficava, preso há um castigo que não era merecido, o castigo da negação que tinha diante de tudo isso, meu coração ficava entorpecido por toda essa atmosfera umbrática que se estabelecia. Não sabia até quando isso iria continuar, quando haveria um grito de desespero para uma luz  me resgatar... Noites que me atormentavam sem fim, medo e solidão, uma combinação que é capaz de acabar com a esperança de um poeta, que olhando à sua imagem não encontrava mais poesia para recitar.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Consternado




Venha, veja e presencie meu estado lastimável
Meu ócio que se perpetua sobre meu espírito
Consumindo e acabando com minha vontade
Trazendo sua tormenta pela noite toda

Não tenho paz, não tenho gozo
Continuo no mundo das sombras
Que assolam minha alma com pujança
Deixando-me estirado no chão como um cão decrepitado
Para ao vento levar o restante de suas forças

Assim passo cada dia sozinho
Nessa borrasca diária
Que apenas expõe a fraqueza de um ser humano decaído
Preso ao seu desalento
Abatido no campo da tristeza
De onde não conseguirá se levantar.

sábado, 28 de abril de 2012

Pela máscara, a Negação.

" Eis a todos que se deparam com a negação "

Pois bem , como posso afrontar a terrível negação ? Talvez com seu inverso,
mas nos deparamos com a problemática fundamental, a negação é amiga íntima e
intrínseca da ignorância, aquela que habitualmente fazem questão de repudiá-la
porém, dificilmente há sua aceitação. Digo a vocês, aonde está a lógica ? Por
favor não coloque seus sentimentos de maneira que repila nossa pobre
conhecida, os sentimentos sempre tendem a renegar a razão , é o coração dando
lugar ao cérebro, mas que troca magnificente. Ambos localizados em partes
distintas de nosso corpo  assumindo funções adversas. Fico atônito
com isso, e portanto decido dedicar-me a esse mero desafogo ao
qual trago essa questão.

" Pelo ato digo-lhes, mascarar ! "






Que maneira sublime nós temos de lidar com cada situação, a máscara torna-se
a peça fundamental. Seria impossível a qualquer ser humano ser um camaleão,
que atributo fabuloso esse animal é dotado, consegue se camuflar a fim de
capturar sua presa e satisfazer sua vontade, já com humanos fazemos isso com
a máscara, ela desfarça, instiga, persuade, engana e vários atos de uma
proporção imensurável. Fico fascinado adotando uma postura comtemplativa quando
vejo máscaras em duplicidade, talvez pensamos diretamente naquilo que
simboliza o teatro, duas máscaras lado à lado porém com expressões
adversas. Logo que vejo isso projeto para o vazio da imagem uma forma humana,
pois a máscara tende a assumir seu estado psicológico, é uma projeção direta.
A Negação começa a tomar sua forma.
Infelizmente sendo uma raça corrompida não usa toda beleza à ela destinada - a natureza
permite que se projete de maneira tão bela e delicada entre rostos
 - vemos uma expressão viciosa que faz o ato de mascarar sua
alternativa para acabar com todo seus problemas afim de beneficiar a si
próprio, negando qualquer princípio usando esse meio  afim de gozar daquilo
que é oferecido, tornando esse ato excrável. 
Continua uma busca incessante procurando pelo verdadeiro rosto por trás daquela máscara
em uma tentativa inútil de alcançar a essência daquilo que lidamos. Pobres diabos aqueles que se empenham nessa empreitada, desditosos acabarão ao chegar no topo da montanha e não haver nenhuma vista para se contemplar, irão se deparar com o mais ignomioso encontro ao perceberem que quando descobrirem que foram enganados, lubibriados pelo encanto de um mero apetrecho utilizado por aqueles que com sua máscara escondem a Negação.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Abraço

Diante da lua tão bela que resplandecia
Nossos corpos formavam um só
Algo mágico, fantasioso acontecia
Brilhando com esplendor
Ela enxia nossos olhos
Que perdiam-se com ardor

Sua ausência me traz lembranças
Daquela noite que gosto de recordar

Envolvendo-me facilmente
Com seu sorriso cativante
Aquele perfume preso ao seu corpo
O qual não queria me separar

Seus olhos serenos
Compartilhavam a jubilidade
Que naquele momento dividíamos
Com tamanha vivacidade

Seu gesto afetivo apaziguava minha dor
De uma solidão profunda
Que toda noite vem e pertuba
Um pobre coração que procura o amor

Cada momento perto de você
Trouxe-me inspiração
Dentro de mim minha voz poética
Decide tomar forma
Fitando a lua nesse momento
Vejo que ela não brilha
Desvanecida entre o céu enevoado
Junto com meu sentimento
Que está incompleto
Esperando seu abraço.



domingo, 4 de março de 2012

-

Por cada noite que passo sozinho
Vejo um rosto estampado nas nuvens
Sutil e delicado , abrasante e enigmático
Tentando me mostrar seu caminho

Aos poucos o vento sopra
Leva tudo embora
Aquele rosto que vi de outrora
Desaparece em meio a escuridão

Eis que surge a lua
Trazendo minha esperança
Cercada pelas estrelas
Sinto na pele minhas lembranças

Por fim a madrugada perece
O céu umbrático da lugar a luz
Perante isso talvez pense
Naquilo que se sucede
Horas , dias e meses
Que vejo passar pela janela
Esperando aquela mesma nuvem
Que tem o rosto dela.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Você

Aonde está você ?
Que me deixou perdido
Durante tantas noites
Olhando pela janela esperando
O vento trazer meu coração desaparecido

Aonde está você ?
Que bateu a porta sem dizer adeus
Fugiu da minha vida
Perdeu-se em sombras
Sem ao menos uma despedida

Aonde está você ?
Que quando foi embora
Trouxe minha sofridão
Ocultou um sorriso vívido
Aquela alacridade de outrora
Que não tenho mais...
Talvez tenha falecido.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Amor e Medo - Parte I

“ Junto ao vento que sopra carregando folhas que caem das árvores neste triste dia de inverno , vejo meus sonhos , lembranças e sentimentos deixando meu corpo , com meu sangue ponho um fim ao meu maior medo ” C.F. Apparício

Capítulo I

Eva

Lembro-me bem dos dias em que meu coração exultava o amor de maneira abrasada , eu compartilhava essa felicidade com alguém , mas meu coração não era suficiente para conter tamanha veemência. Quando a conheci durante uma peça de teatro via que ela aparentava algo de diferente e peculiar , que logo despertou um interesse repentino em mim , em um breve momento casual começamos a conversar sobre a peça e aos poucos nossa conversa abordaria diversos temas e cada vez mais eu sentia uma afinidade com aquela mulher , ela era diferente de todas em volta , era especial , única. Decidimos certo dia nos encontrar em um café para conversarmos e nos conhecer mais e depois desse dia eu sentia que pela primeira vez na minha vida poderia usufruir de uma alegria insólita , cada minuto da minha vida a partir daquele dia me deixava entorpecido por uma sensação que me arrebatava de maneira sem igual , e nesse estado torpe eu pretendia ficar , como uma droga que age diretamente no sistema nervoso fazia-me viver fora da realidade que eu havia vivido até então , eu havia entrado em um novo mundo e dele não desejava sair. Em cada encontro que tivemos posteriormente eu jamais pude deixar de notar seu caráter melífluo , seu rosto demonstrava mansuetude , olhos azuis e ternos os quais eu poderia esquecer de qualquer enfado , lábios que transpareciam gracejo , cabelos louros que nenhum homem haveria de resistir ao seu encanto. O tempo passava-se e cada vez mais sentia-me regozijado por usufruir de sua companhia junto a mim , qualquer atividade trivial tornava-se extraordinária , para um pobre homem que havia vivido preso a sua solidão esse era o melhor presente que ele poderia receber , aos poucos o medo que me assolava extinguia-se , ela havia trazido a "luz" e assim afugentou esse male que por tanto tempo me afligiu. Cada vez mais nosso laço tornava-se mais forte e compartilhávamos diversas experiências ,aos poucos ela era uma parte de minha vida , uma página que se escrevia em meu livro , uma história que eu adorava fazer parte e dividir com ela. Passavam-se dias , semanas e até meses , eu pensava seriamente em tomar uma decisão , gostaria de torná-la minha amada , mais do que minha amiga , eu já não conseguia ver minha vida sem ela por perto , imaginar que ela poderia ficar longe de mim era incompreensível , os dias que passavam-se ausentes de sua presença sempre traziam angústia .Temia que ao badalar do relógio da igreja meu passado temido voltasse...meu medo que outrora pensei nunca mais ver , mas eu sabia que era algo arriscado e cada vez que cogitava essa ideia o peso da dúvida caia sobre minhas costas esmagando-me junto ao chão , o resultado disso era tal como um céu plúmbeo que apagou o sol com suas nuvens cinzentas. As noites passavam-se e minha inquietação tornava-se constante , cada vez mais ansioso e receoso com minha decisão eu começava a monologar afim de poder entrar num consenso , eu estava dividido e prestes a realizar uma controvérsia inelutável : “Seu fracote se você não tomar essa decisão outros tomarão !” , “Não sou nenhum fraco ! Apenas tenho receio de perdê-la ou espantá-la” ,“Maldição ! Quer voltar aonde esteve por tanto tempo , preso a solidão ? ” ,“ Ela é uma boa amiga , essa decisão é delicada , tenho receio do que possa acontecer se meu pedido for negado...” , “Não há mulher que esteja à altura dela , ela é perfeita...você precisa dela , de seus lábios , seu carinho , de seu corpo...” ,“Aos diabos tais desejos libidinosos ! Gosto dela por preocupar-me com ela , não apenas visando um prazer carnal !”, “ Pois bem , mas saiba que só há uma oportunidade assim na vida , se você perdê-la a oportunidade será de outro. E saiba que se outra pessoa aparecer eu voltarei em vê-lo , afinal estará sozinho novamente , trancafiado em seu quarto...“ , “No fim das contas você tem razão...tê-la ao meu lado como mais do que uma amiga...minha amada...isso afastará você de mim”. Ao fim de tudo isso eu acabava por aquiescer ao meu lado impulsivo , pois seria uma chance de finalmente não ficar à mercê do meu medo, sendo assim deixei a minha racionalidade “presa” dentro de uma caixa que por aquele momento eu havia me desfeito da chave e não pretendia abri-la. Certa tarde de um domingo decidimos nos encontrar numa praça , fazia muito frio e a cidade enfrentava um dos invernos mais rigorosos desde então , eu esperava por ela sentado em um banco próximo a um grande carvalho que apenas mostrava seus galhos secos e fazia-nos imaginar as folhas que ali estiveram na primavera, eu ficava impaciente , olhava para o meu relógio de cinco em cinco minutos e os cigarros pareciam desaparecer em minha mão , por fim ela chegou com seu andar gracioso eu olhava e ao mesmo tempo fremia em decorrência desse momento e assim que ela chegou sentou-se ao meu lado.

Olá meu caro , é bom revê-lo novamente , afinal já há um certo tempo que não nos encontramos. - Cada palavra dita vinha acompanhada de seu olhar reconfortante e um sorriso aprazível que me fazia sentir como o homem mais bem aventurado que poderia existir.

Sim , de fato.

Como tem passado ? Treme bastante pelo o que vejo , está com frio ?

Na verdade não , estou bem aquecido com esse casaco e acho que é quase impossível sentir frio com ele – Disse isso deixando um sorriso sutil em meu rosto.

Estou bem , posso dizer que estive muito pensativo ultimamente...

Interessante e que pensamentos traz em mente ? Conte-me – Disse ela com um tom bem curioso

Você tem sido uma ótima pessoa , devo confessar que você trouxe uma “luz” em minha vida , algo que não pude encontrar em ninguém mais. A cada momento que passo com você , assim que chego em casa eu espero ardentemente a próxima vez para reencontrá-la , ver novamente seu sorriso , seu rosto e toda graça que traz consigo.

Por um momento houve um breve silêncio entre ambas as partes.

Nossa...eu fico atônita ao ouvir sua declaração , estou até sem jeito pois nunca imaginei que eu seria capaz de ser tão importante para alguém mesmo conhecendo você a pouco.

Engraçado não é mesmo ? Talvez o tempo não seja um fator determinante nessa ocasião.

Pelo jeito parece que não.

Obrigada , eu realmente sinto-me lisonjeada por ter ouvido isso.

– Eu apenas estou dizendo a verdade e o efeito que ela tem tido sobre minha vida , nada mais.

E quanto a você , como tem passado ?

Atualmente estou bem , estou planejando alguns planos futuros , tenho a pretensão de começar meus estudos na universidade em breve , minha tia mudou-se para a capital a pouco tempo e está disposta a financiar meus estudos , quero muito entrar na faculdade de medicina , é um sonho que carrego comigo desde criança e só há uma oportunidade assim na vida , portanto irei aproveitá-la antes que eu a perca.

Quando ouvi ela dizer “ só há uma oportunidade assim na vida” recordei-me da discussão da noite anterior. Isso poderia ser um agravo para os meus planos , afinal ela estaria longe e provavelmente teria poucas oportunidades em revê-la , queria ela por perto , eu começava a não aceitar essa ideia , perturbava-me por dentro essa simples questão de ter ela longe daqui , sentia aos poucos que algo de ruim poderia acontecer comigo novamente , o temor de que tudo voltaria a se repetir. Eu não pretendia viver aquela tormenta mais uma vez , estava diante de uma possibilidade de livrar-me disso de uma vez por todas , eu precisava dizer a ela o que eu havia decidido.

É uma ótima oportunidade mesmo...

Está tudo bem ? Você parece um pouco conturbado com o que eu acabei de dizer

Não , é que há algo mais que eu quero lhe dizer.

Diga , estou a ouvi-lo.

Eu quero tomá-la como minha amada. Cheguei a conclusão que não posso ficar sem você , não mais , não posso resistir a minha solidão , eu preciso , eu quero você e ninguém mais.

Como assim ? Você tem certeza do que está dizendo ? - Seu rosto logo ficou perplexo após ouvir cada palavra que eu disse.

Você entendeu , você sabe o que estou dizendo.

Isso é uma decisão difícil , pois vejo você como um bom amigo e essa questão poderia colocar em risco nossa amizade , prezo muito por ela...

O que você está dizendo ? Eu quero elevar o grau de nossa relação ! Tornar-nos mais próximos !

Eu compreendo , mas eu como uma amiga sincera e honesta preciso dizer a você que eu não posso aceitar isso. Além do mais tenho meus planos e isso poderia interrompê-los. Eu não posso mentir para você ou enganá-lo com falsas esperanças por que apenas iria vê-lo sofrer com isso , de maneira alguma quero que isso aconteça. Espero que aceite e compreenda o minha opinião.

Eu não consigo . Eu não posso.

Subitamente eu me perdia entre o medo e a raiva , eles travavam uma guerra épica de contos da mitologia grega dentro da minha cabeça. Minha fantasia parecia ter chegado ao fim , eu estava de volta à realidade e junto dela ficava defronte à negação que jamais encontraria em meu mundo fantasioso. Esse retorno veio com enorme pujança que acabava de me nocautear ao chão , eu não conseguia aceitar isso , a volta do meu fantasma que me atormentou outrora voltava agora para continuar a tarefa de antes. Um ato impulsivo e irracional fecharia ainda mais o portão que me levou ao paraíso.

Você não vai me deixar , você será minha e de mais ninguém !

Não creio que esse assunto tenha que continuar , é melhor você parar. - Disse ela em um tom imperioso.

Só irei parar quando tê-la em meus braços – Decidi segurar o braço dela agressivamente.

Solte-me ! O que há de errado com você ?

Eu não posso viver sem você ! - Nesse momento sentia que a demência preenchera minha mente e eu já não controlava meus atos.

Quero e desejo você , ei de tê-la comigo !

Pare com isso , estou ficando incomodada !

Você é minha , minha salvação , meu amor.

Você está louco ?! Isso está além de amor , você está ficando obcecado ! - Seu rosto refletia o medo e a aversão ali instaurada pelo meu ato de desespero.

Isso é exagero , apenas quero oferecer meu amor para você nada mais , apenas você o merece !

Nosso amor é apenas entre amigos e nada mais.

Ele pode ser mais do que isso e assim será !

Entenda o que quero dizer , eu apenas quero você como um bom amigo , não como meu amante , pare com isso por favor.

Não posso , é de você que preciso , não quero voltar naquele mundo maldito que vivi por tanto tempo !

Que mundo , o que está falando ?

Sem você eu voltarei à solidão , e para nunca mais voltar quero você sempre ao meu lado e como minha amante e de ninguém mais !

Você está fora de si ! Eu vou embora e é melhor ausentar-me por um tempo para não agravar sua situação. Até logo.

Nesse momento puxei seu corpo de maneira brusca tentando agarrá-la , ela se debateu ao ponto de cair ao chão e machucar-se, eu via uma lágrima sair de seus olhos e sentia o preço da minha ignominia naquele instante , mas o peso da negação havia me consumido e eu gritava por ela enquanto via seu corpo desaparecer em meio do nevoeiro que cingia a praça.

Capítulo II

Um encontro com o Medo

Várias semanas se passaram após o trágico incidente , minha vida ficou tomada pelo peso em minha consciência , cada dia eu percebia o quão desditoso eu havia me tornado , a falta dela , de seu sorriso que tomava-me pelo gracejo era como uma faca encravada em meu peito que aos poucos torturava-me com um sofrimento sem fim. Durante esse período não tive nenhuma notícia sobre seu paradeiro , não sabia se ela já ha via deixado a cidade rumo a capital ou qualquer coisa do gênero , desaventurado e arrependido por mais vexatórios que tenham sido meus atos eu não via outra alternativa além de afundar-me noite após noite em uma garrafa de whisky combinada com uma medicação adquirida de maneira ilícita afim de esquecer da minha vida , pois essa estava-se tornando um fardo maior que eu poderia carregar. Em um certo dia eu acabava de chegar em casa e encontrei ela sentada perto da mesa fitando-me , fiquei espantado por encontrá-la em minha casa , pois havia sido a primeira vez que ela apareceu em tanto tempo , mesmo sem avisar ou mandar um bilhete ; havia algo estranho em vista , pois jamais havia visto ela de tal maneira , com um olhar penetrante e uma expressão séria em seu rosto , logo decidi perguntar o que se passava.

Sente-se , precisamos conversar.

Certo , fico surpresa por vê-la aqui , não esperava sua visita.

Há algumas coisas que precisamos acertar.

Pois bem , diga.

Olha , meu caro amigo , tenho grande estima por você , mas percebo que talvez nossa relação esteja em um ponto crítico e sinto que isso possa vir a ser um problema para nós , especialmente para você.

Você não está vivendo sua vida , veja em volta de si mesmo. Está tomado pelo alcoolismo , quer fugir da realidade ? Não há como. Você precisa enxergar o que está acontecendo e compreender.

Compreender ? Como quer que eu compreenda o que está sendo imposto ?! Eu cai em desgraça por ouvir a mim mesmo , dei ouvidos a mim mesmo um perfeito imbecil !

Pare com isso , você apenas está querendo algo que não pode ter , eu quero apenas ter você como um bom amigo , por que não aceita isso ?

Por que eu não posso ! - Um tom exasperado enaltecia minha voz.

Se você não pode compreender eu não posso ajudá-lo. Estou me esforçando para chegarmos numa resolução que agrade a ambos. Gosto de você.

Certo , então saiba de uma coisa , eu quero que você desapareça da minha vida , suma !

Por que fala comigo com tamanha animosidade ? O que te fiz de errado meu caro ?

Entrou em minha vida e vetou o que eu mais queria , o que eu mais desejava avidamente , encantou-me , fisgou-me feito um peixe no lago e agora estou aqui renegado , por apenas demonstrar meus sentimentos que talvez devesse jamais expor.

Você não fez mal algum em mostrá-los , é humano , todos nós estamos presos ao sentimentalismo , mas eu não sou a pessoa certa com quem irá compartilhá-los , não esse sentimento , o sentimento que quero compartilhar contigo é a minha amizade , meu ombro amigo e você parece ter esquecido disso visando apenas o seu lado , está sendo egoísta em não compreender como eu me sinto perante a isso.

Saia daqui agora , eu não quero mais vê-la , ouviu bem ? Prefiro a solidão do que a sua renúncia ao meu amor. Não quero mais ver o seu rosto , espero que torne-se um fantasma como os que já carrego em minha vida , suma agora e vá junto com os diabos para sua maldita universidade !

Pois bem , adeus.- Disse ela de maneira concisa.

Após suas últimas palavras ela pegou sua bolsa e quando dirigia-se à porta , olhou-me diretamente sem dizer uma palavra ,apenas com um olhar reprovador e aborrecido por ter sido tratada com tamanha animosidade por um amigo ,eu podia ver nitidamente que ela segurava seu pranto , eu havia magoado ela profundamente e decidi dizer uma palavra sequer. Eu sabia que após esse último encontro talvez jamais voltaria a vê-la. Agora eu sabia que estava fadado a tristeza , a solidão , era uma questão de tempo até o meu medo chegasse e me levasse junto com ele , eu chorava como uma criança , encolhido e deitado na cama eu não via mais nenhum motivo para continuar respirando , para ir até a praça ou até mesmo aproveitar um dia de verão assistindo uma peça de teatro , uma atmosfera nefasta encobria as paredes e deixava-me enfadado , ele estava chegando eu podia pressentir , o meu quarto ficava frio e a luz parecia deixar de existir , cada vez mais aquela atmosfera deixava-me desesperado , formas abomináveis formavam-se pelas paredes , nada poderia me tirar de lá. Talvez o meu maior erro tenha sido deixar minha racionalidade esquecida em algum lugar , agora eu sabia que a demência tomaria total controle sobre minha mente , não havia mais espaço para a lucidez, a fantasia criada por mim mesmo foi apenas um “placebo” para eu pudesse afastar-me do meu maior medo , ele foi útil até o momento que eu percebi que não poderia viver para sempre preso à fantasia. A realidade é como a morte , inevitável. Ao anoitecer eu sentia o mesmo medo que uma criança tem de um pesadelo , mas nesse caso eu não estaria dormindo e o veria de olhos bem abertos. Ouço algumas batidas na porta , a maçaneta gira e surge alguém , vestindo um sobretudo preto , roupas que pareciam ser feitas por um exímio alfaiate, sapatos bem lustrados e entrando devagar começa gritar pelo meu nome , eu decido esconder-me dentro do guarda-roupa e vejo pelo vão da porta ele aproximar-se , não vejo seu rosto pois o mesmo está com uma máscara que aparenta uma expressão execrável ,quando vejo sua face coberta meu coração começa a palpitar cada vez mais , eu sinto o “medo” e dessa vez estou diante dele. Após perambular pela casa à minha procura ele finalmente encontra-me como um animal acuado que encara seu predador , por fim ele abre a porta do guarda-roupa e me tira para fora como uma roupa velha que você decide jogar fora.

Aí está você , pensou que iria esconder-se de mim ?

Não...

Que bom , sabe , já faz um tempo que não nos encontramos , não é mesmo ? Lembro-me da última vez , mas recentemente alguém andou cessando minhas visitas , portanto tive que ausentar-me de vez , é uma pena que ela tenha ido embora , era uma moça graciosa.

Foi você que fez isso comigo. Instigou-me a agir de tal maneira , me persuadiu afim de eu mesmo por um fim na nossa amizade , seu bastardo !

Olha só...Que boca suja você tem , meu caro. - Pôs-se a rir

Maldito ! O que você fez comigo ? Diga-me !

Eu não fiz absolutamente nada , você por acaso parou para pensar o propósito da minha visita ? Reconhece essa chave ?

Que diabos é essa chave ?

Quão ingênuo é você...essa chave é chave do lugar que você guardou toda sua racionalidade deixando sua mente livre para agir impulsivamente e você sabe que quando se age por impulso não se raciocina , não é mesmo ?

Cale-se seu miserável , que diabos faz aqui , como entrou ?

Pela porta , por onde mais teria entrado ? Eu lamento que meu encontro seja carregado de tamanha malquerença , mas é meu trabalho. A partir do momento que você deixou de lado sua capacidade de raciocinar você me deu total liberdade de retornar aqui e confesso que o único culpado é você.

Eu deveria matar você agora , seu verme ignóbil!

Tente , veja se consegue. - Disse em um tom desafiador.

Nesse momento tentei injuriar aquela figura que sentava-se diante de mim com uma garrafa que estava ao meu lado.

Bela tentativa , eu confesso que você acaba de sujar meu terno novo , mas veja sua mão...está um pouco “suja” , não ?

Minha mão começou a sangrar e nesse momento eu ficava perplexo pois bati com a garrafa junto a ele.

Ainda não consegue entender ?

– Entender o quê ? Diga !

– Eu sou você.

Morra ! Maldito ! - Eu comecei a agredi-lo incessantemente , cada golpe que eu deferia com meus punhos e com os pedaços de vidro deixavam suas risadas maléficas cada vez mais enaltecidas.

Ainda paira a incerteza ? Pois bem veja com seus próprios olhos. – Ele retirou a sua máscara e quando vi observava perplexo minha face diante de meus olhos , o sangue escorria pelas minhas mãos como um rio , gotas que caiam como uma chuva pingavam no chão, minhas mãos estavam cobertas de sangue e injuriadas , olhei meu tórax e percebi hematomas por toda parte , aquela aparição não estava mentindo , o maior medo que eu tinha era intrínseco , minha eterna e infeliz solidão.

Você não tem como por um fim em mim. Terá de conviver comigo , sou seu carma , seu fantasma , sou seu maior medo ! - Exaltava-se a si mesmo.

Fiquei diante dele observando até que uma ideia mórbida e resoluta surgiu em minha cabeça , fruto de uma mente doentia e exasperada que havia abandonado a razão e agora não havia nada mais a perder.

Quer saber...somos a mesma pessoa , não é mesmo ?

De fato. - Dizia com um sorriso impudente.

Então eu já sei como por um fim nisso tudo... Adeus.

Peguei um pedaço de vidro que encontrava-se ao chão e decidi cortar minha garganta , um corte profundo na minha jugular faria todo sofrimento que tenho vivido ultimamente terminar em alguns segundos , era a única maneira de por um fim nisso. Pergunto a mim mesmo se algum dia a felicidade , o júbilo , poderão entrar novamente pela porta que olho atentamente nesse derradeiro momento, estirado ao chão vendo meu sangue alastrar-se pelo assoalho do quarto vejo que a aparição começa a desfalecer aos poucos como um papel consumido pelo fogo que agora joga suas cinzas ao vento. Gostaria de apenas fazer uma última pergunta antes que eu perca minhas faculdades mentais : “Será que um dia voltarei a vê-la ? Se eu puder , quero lhe pedir desculpas... jamais deveria ter magoado você...jamais...” Neste quarto exíguo que encontro-me sinto asco quando olho pela última vez a janela e vejo meu reflexo, nele um rosto o qual sinto aversão , o meu rosto...
A cada momento que sinto o vazio se aproximando desse quarto tento apegar-me às minhas recordações numa ínfima esperança de poder ver aquele sorriso , por mais breve que o mesmo seja , é o que me resta.