“ Junto ao vento que sopra carregando folhas que caem das árvores neste triste dia de inverno , vejo meus sonhos , lembranças e sentimentos deixando meu corpo , com meu sangue ponho um fim ao meu maior medo ” C.F. Apparício
Capítulo I
Eva
Lembro-me bem dos dias em que meu coração exultava o amor de maneira abrasada , eu compartilhava essa felicidade com alguém , mas meu coração não era suficiente para conter tamanha veemência. Quando a conheci durante uma peça de teatro via que ela aparentava algo de diferente e peculiar , que logo despertou um interesse repentino em mim , em um breve momento casual começamos a conversar sobre a peça e aos poucos nossa conversa abordaria diversos temas e cada vez mais eu sentia uma afinidade com aquela mulher , ela era diferente de todas em volta , era especial , única. Decidimos certo dia nos encontrar em um café para conversarmos e nos conhecer mais e depois desse dia eu sentia que pela primeira vez na minha vida poderia usufruir de uma alegria insólita , cada minuto da minha vida a partir daquele dia me deixava entorpecido por uma sensação que me arrebatava de maneira sem igual , e nesse estado torpe eu pretendia ficar , como uma droga que age diretamente no sistema nervoso fazia-me viver fora da realidade que eu havia vivido até então , eu havia entrado em um novo mundo e dele não desejava sair. Em cada encontro que tivemos posteriormente eu jamais pude deixar de notar seu caráter melífluo , seu rosto demonstrava mansuetude , olhos azuis e ternos os quais eu poderia esquecer de qualquer enfado , lábios que transpareciam gracejo , cabelos louros que nenhum homem haveria de resistir ao seu encanto. O tempo passava-se e cada vez mais sentia-me regozijado por usufruir de sua companhia junto a mim , qualquer atividade trivial tornava-se extraordinária , para um pobre homem que havia vivido preso a sua solidão esse era o melhor presente que ele poderia receber , aos poucos o medo que me assolava extinguia-se , ela havia trazido a "luz" e assim afugentou esse male que por tanto tempo me afligiu. Cada vez mais nosso laço tornava-se mais forte e compartilhávamos diversas experiências ,aos poucos ela era uma parte de minha vida , uma página que se escrevia em meu livro , uma história que eu adorava fazer parte e dividir com ela. Passavam-se dias , semanas e até meses , eu pensava seriamente em tomar uma decisão , gostaria de torná-la minha amada , mais do que minha amiga , eu já não conseguia ver minha vida sem ela por perto , imaginar que ela poderia ficar longe de mim era incompreensível , os dias que passavam-se ausentes de sua presença sempre traziam angústia .Temia que ao badalar do relógio da igreja meu passado temido voltasse...meu medo que outrora pensei nunca mais ver , mas eu sabia que era algo arriscado e cada vez que cogitava essa ideia o peso da dúvida caia sobre minhas costas esmagando-me junto ao chão , o resultado disso era tal como um céu plúmbeo que apagou o sol com suas nuvens cinzentas. As noites passavam-se e minha inquietação tornava-se constante , cada vez mais ansioso e receoso com minha decisão eu começava a monologar afim de poder entrar num consenso , eu estava dividido e prestes a realizar uma controvérsia inelutável : “Seu fracote se você não tomar essa decisão outros tomarão !” , “Não sou nenhum fraco ! Apenas tenho receio de perdê-la ou espantá-la” ,“Maldição ! Quer voltar aonde esteve por tanto tempo , preso a solidão ? ” ,“ Ela é uma boa amiga , essa decisão é delicada , tenho receio do que possa acontecer se meu pedido for negado...” , “Não há mulher que esteja à altura dela , ela é perfeita...você precisa dela , de seus lábios , seu carinho , de seu corpo...” ,“Aos diabos tais desejos libidinosos ! Gosto dela por preocupar-me com ela , não apenas visando um prazer carnal !”, “ Pois bem , mas saiba que só há uma oportunidade assim na vida , se você perdê-la a oportunidade será de outro. E saiba que se outra pessoa aparecer eu voltarei em vê-lo , afinal estará sozinho novamente , trancafiado em seu quarto...“ , “No fim das contas você tem razão...tê-la ao meu lado como mais do que uma amiga...minha amada...isso afastará você de mim”. Ao fim de tudo isso eu acabava por aquiescer ao meu lado impulsivo , pois seria uma chance de finalmente não ficar à mercê do meu medo, sendo assim deixei a minha racionalidade “presa” dentro de uma caixa que por aquele momento eu havia me desfeito da chave e não pretendia abri-la. Certa tarde de um domingo decidimos nos encontrar numa praça , fazia muito frio e a cidade enfrentava um dos invernos mais rigorosos desde então , eu esperava por ela sentado em um banco próximo a um grande carvalho que apenas mostrava seus galhos secos e fazia-nos imaginar as folhas que ali estiveram na primavera, eu ficava impaciente , olhava para o meu relógio de cinco em cinco minutos e os cigarros pareciam desaparecer em minha mão , por fim ela chegou com seu andar gracioso eu olhava e ao mesmo tempo fremia em decorrência desse momento e assim que ela chegou sentou-se ao meu lado.
– Olá meu caro , é bom revê-lo novamente , afinal já há um certo tempo que não nos encontramos. - Cada palavra dita vinha acompanhada de seu olhar reconfortante e um sorriso aprazível que me fazia sentir como o homem mais bem aventurado que poderia existir.
– Sim , de fato.
– Como tem passado ? Treme bastante pelo o que vejo , está com frio ?
– Na verdade não , estou bem aquecido com esse casaco e acho que é quase impossível sentir frio com ele – Disse isso deixando um sorriso sutil em meu rosto.
– Estou bem , posso dizer que estive muito pensativo ultimamente...
– Interessante e que pensamentos traz em mente ? Conte-me – Disse ela com um tom bem curioso
– Você tem sido uma ótima pessoa , devo confessar que você trouxe uma “luz” em minha vida , algo que não pude encontrar em ninguém mais. A cada momento que passo com você , assim que chego em casa eu espero ardentemente a próxima vez para reencontrá-la , ver novamente seu sorriso , seu rosto e toda graça que traz consigo.
Por um momento houve um breve silêncio entre ambas as partes.
– Nossa...eu fico atônita ao ouvir sua declaração , estou até sem jeito pois nunca imaginei que eu seria capaz de ser tão importante para alguém mesmo conhecendo você a pouco.
– Engraçado não é mesmo ? Talvez o tempo não seja um fator determinante nessa ocasião.
– Pelo jeito parece que não.
– Obrigada , eu realmente sinto-me lisonjeada por ter ouvido isso.
– Eu apenas estou dizendo a verdade e o efeito que ela tem tido sobre minha vida , nada mais.
– E quanto a você , como tem passado ?
– Atualmente estou bem , estou planejando alguns planos futuros , tenho a pretensão de começar meus estudos na universidade em breve , minha tia mudou-se para a capital a pouco tempo e está disposta a financiar meus estudos , quero muito entrar na faculdade de medicina , é um sonho que carrego comigo desde criança e só há uma oportunidade assim na vida , portanto irei aproveitá-la antes que eu a perca.
Quando ouvi ela dizer “ só há uma oportunidade assim na vida” recordei-me da discussão da noite anterior. Isso poderia ser um agravo para os meus planos , afinal ela estaria longe e provavelmente teria poucas oportunidades em revê-la , queria ela por perto , eu começava a não aceitar essa ideia , perturbava-me por dentro essa simples questão de ter ela longe daqui , sentia aos poucos que algo de ruim poderia acontecer comigo novamente , o temor de que tudo voltaria a se repetir. Eu não pretendia viver aquela tormenta mais uma vez , estava diante de uma possibilidade de livrar-me disso de uma vez por todas , eu precisava dizer a ela o que eu havia decidido.
– É uma ótima oportunidade mesmo...
– Está tudo bem ? Você parece um pouco conturbado com o que eu acabei de dizer
– Não , é que há algo mais que eu quero lhe dizer.
– Diga , estou a ouvi-lo.
– Eu quero tomá-la como minha amada. Cheguei a conclusão que não posso ficar sem você , não mais , não posso resistir a minha solidão , eu preciso , eu quero você e ninguém mais.
– Como assim ? Você tem certeza do que está dizendo ? - Seu rosto logo ficou perplexo após ouvir cada palavra que eu disse.
– Você entendeu , você sabe o que estou dizendo.
– Isso é uma decisão difícil , pois vejo você como um bom amigo e essa questão poderia colocar em risco nossa amizade , prezo muito por ela...
– O que você está dizendo ? Eu quero elevar o grau de nossa relação ! Tornar-nos mais próximos !
– Eu compreendo , mas eu como uma amiga sincera e honesta preciso dizer a você que eu não posso aceitar isso. Além do mais tenho meus planos e isso poderia interrompê-los. Eu não posso mentir para você ou enganá-lo com falsas esperanças por que apenas iria vê-lo sofrer com isso , de maneira alguma quero que isso aconteça. Espero que aceite e compreenda o minha opinião.
– Eu não consigo . Eu não posso.
Subitamente eu me perdia entre o medo e a raiva , eles travavam uma guerra épica de contos da mitologia grega dentro da minha cabeça. Minha fantasia parecia ter chegado ao fim , eu estava de volta à realidade e junto dela ficava defronte à negação que jamais encontraria em meu mundo fantasioso. Esse retorno veio com enorme pujança que acabava de me nocautear ao chão , eu não conseguia aceitar isso , a volta do meu fantasma que me atormentou outrora voltava agora para continuar a tarefa de antes. Um ato impulsivo e irracional fecharia ainda mais o portão que me levou ao paraíso.
– Você não vai me deixar , você será minha e de mais ninguém !
– Não creio que esse assunto tenha que continuar , é melhor você parar. - Disse ela em um tom imperioso.
– Só irei parar quando tê-la em meus braços – Decidi segurar o braço dela agressivamente.
– Solte-me ! O que há de errado com você ?
– Eu não posso viver sem você ! - Nesse momento sentia que a demência preenchera minha mente e eu já não controlava meus atos.
– Quero e desejo você , ei de tê-la comigo !
– Pare com isso , estou ficando incomodada !
– Você é minha , minha salvação , meu amor.
– Você está louco ?! Isso está além de amor , você está ficando obcecado ! - Seu rosto refletia o medo e a aversão ali instaurada pelo meu ato de desespero.
– Isso é exagero , apenas quero oferecer meu amor para você nada mais , apenas você o merece !
– Nosso amor é apenas entre amigos e nada mais.
– Ele pode ser mais do que isso e assim será !
– Entenda o que quero dizer , eu apenas quero você como um bom amigo , não como meu amante , pare com isso por favor.
– Não posso , é de você que preciso , não quero voltar naquele mundo maldito que vivi por tanto tempo !
– Que mundo , o que está falando ?
– Sem você eu voltarei à solidão , e para nunca mais voltar quero você sempre ao meu lado e como minha amante e de ninguém mais !
– Você está fora de si ! Eu vou embora e é melhor ausentar-me por um tempo para não agravar sua situação. Até logo.
Nesse momento puxei seu corpo de maneira brusca tentando agarrá-la , ela se debateu ao ponto de cair ao chão e machucar-se, eu via uma lágrima sair de seus olhos e sentia o preço da minha ignominia naquele instante , mas o peso da negação havia me consumido e eu gritava por ela enquanto via seu corpo desaparecer em meio do nevoeiro que cingia a praça.
Capítulo II
Um encontro com o Medo
Várias semanas se passaram após o trágico incidente , minha vida ficou tomada pelo peso em minha consciência , cada dia eu percebia o quão desditoso eu havia me tornado , a falta dela , de seu sorriso que tomava-me pelo gracejo era como uma faca encravada em meu peito que aos poucos torturava-me com um sofrimento sem fim. Durante esse período não tive nenhuma notícia sobre seu paradeiro , não sabia se ela já ha via deixado a cidade rumo a capital ou qualquer coisa do gênero , desaventurado e arrependido por mais vexatórios que tenham sido meus atos eu não via outra alternativa além de afundar-me noite após noite em uma garrafa de whisky combinada com uma medicação adquirida de maneira ilícita afim de esquecer da minha vida , pois essa estava-se tornando um fardo maior que eu poderia carregar. Em um certo dia eu acabava de chegar em casa e encontrei ela sentada perto da mesa fitando-me , fiquei espantado por encontrá-la em minha casa , pois havia sido a primeira vez que ela apareceu em tanto tempo , mesmo sem avisar ou mandar um bilhete ; havia algo estranho em vista , pois jamais havia visto ela de tal maneira , com um olhar penetrante e uma expressão séria em seu rosto , logo decidi perguntar o que se passava.
– Sente-se , precisamos conversar.
– Certo , fico surpresa por vê-la aqui , não esperava sua visita.
– Há algumas coisas que precisamos acertar.
– Pois bem , diga.
– Olha , meu caro amigo , tenho grande estima por você , mas percebo que talvez nossa relação esteja em um ponto crítico e sinto que isso possa vir a ser um problema para nós , especialmente para você.
– Você não está vivendo sua vida , veja em volta de si mesmo. Está tomado pelo alcoolismo , quer fugir da realidade ? Não há como. Você precisa enxergar o que está acontecendo e compreender.
– Compreender ? Como quer que eu compreenda o que está sendo imposto ?! Eu cai em desgraça por ouvir a mim mesmo , dei ouvidos a mim mesmo um perfeito imbecil !
– Pare com isso , você apenas está querendo algo que não pode ter , eu quero apenas ter você como um bom amigo , por que não aceita isso ?
– Por que eu não posso ! - Um tom exasperado enaltecia minha voz.
– Se você não pode compreender eu não posso ajudá-lo. Estou me esforçando para chegarmos numa resolução que agrade a ambos. Gosto de você.
– Certo , então saiba de uma coisa , eu quero que você desapareça da minha vida , suma !
– Por que fala comigo com tamanha animosidade ? O que te fiz de errado meu caro ?
– Entrou em minha vida e vetou o que eu mais queria , o que eu mais desejava avidamente , encantou-me , fisgou-me feito um peixe no lago e agora estou aqui renegado , por apenas demonstrar meus sentimentos que talvez devesse jamais expor.
– Você não fez mal algum em mostrá-los , é humano , todos nós estamos presos ao sentimentalismo , mas eu não sou a pessoa certa com quem irá compartilhá-los , não esse sentimento , o sentimento que quero compartilhar contigo é a minha amizade , meu ombro amigo e você parece ter esquecido disso visando apenas o seu lado , está sendo egoísta em não compreender como eu me sinto perante a isso.
– Saia daqui agora , eu não quero mais vê-la , ouviu bem ? Prefiro a solidão do que a sua renúncia ao meu amor. Não quero mais ver o seu rosto , espero que torne-se um fantasma como os que já carrego em minha vida , suma agora e vá junto com os diabos para sua maldita universidade !
– Pois bem , adeus.- Disse ela de maneira concisa.
Após suas últimas palavras ela pegou sua bolsa e quando dirigia-se à porta , olhou-me diretamente sem dizer uma palavra ,apenas com um olhar reprovador e aborrecido por ter sido tratada com tamanha animosidade por um amigo ,eu podia ver nitidamente que ela segurava seu pranto , eu havia magoado ela profundamente e decidi dizer uma palavra sequer. Eu sabia que após esse último encontro talvez jamais voltaria a vê-la. Agora eu sabia que estava fadado a tristeza , a solidão , era uma questão de tempo até o meu medo chegasse e me levasse junto com ele , eu chorava como uma criança , encolhido e deitado na cama eu não via mais nenhum motivo para continuar respirando , para ir até a praça ou até mesmo aproveitar um dia de verão assistindo uma peça de teatro , uma atmosfera nefasta encobria as paredes e deixava-me enfadado , ele estava chegando eu podia pressentir , o meu quarto ficava frio e a luz parecia deixar de existir , cada vez mais aquela atmosfera deixava-me desesperado , formas abomináveis formavam-se pelas paredes , nada poderia me tirar de lá. Talvez o meu maior erro tenha sido deixar minha racionalidade esquecida em algum lugar , agora eu sabia que a demência tomaria total controle sobre minha mente , não havia mais espaço para a lucidez, a fantasia criada por mim mesmo foi apenas um “placebo” para eu pudesse afastar-me do meu maior medo , ele foi útil até o momento que eu percebi que não poderia viver para sempre preso à fantasia. A realidade é como a morte , inevitável. Ao anoitecer eu sentia o mesmo medo que uma criança tem de um pesadelo , mas nesse caso eu não estaria dormindo e o veria de olhos bem abertos. Ouço algumas batidas na porta , a maçaneta gira e surge alguém , vestindo um sobretudo preto , roupas que pareciam ser feitas por um exímio alfaiate, sapatos bem lustrados e entrando devagar começa gritar pelo meu nome , eu decido esconder-me dentro do guarda-roupa e vejo pelo vão da porta ele aproximar-se , não vejo seu rosto pois o mesmo está com uma máscara que aparenta uma expressão execrável ,quando vejo sua face coberta meu coração começa a palpitar cada vez mais , eu sinto o “medo” e dessa vez estou diante dele. Após perambular pela casa à minha procura ele finalmente encontra-me como um animal acuado que encara seu predador , por fim ele abre a porta do guarda-roupa e me tira para fora como uma roupa velha que você decide jogar fora.
– Aí está você , pensou que iria esconder-se de mim ?
– Não...
– Que bom , sabe , já faz um tempo que não nos encontramos , não é mesmo ? Lembro-me da última vez , mas recentemente alguém andou cessando minhas visitas , portanto tive que ausentar-me de vez , é uma pena que ela tenha ido embora , era uma moça graciosa.
– Foi você que fez isso comigo. Instigou-me a agir de tal maneira , me persuadiu afim de eu mesmo por um fim na nossa amizade , seu bastardo !
– Olha só...Que boca suja você tem , meu caro. - Pôs-se a rir
– Maldito ! O que você fez comigo ? Diga-me !
– Eu não fiz absolutamente nada , você por acaso parou para pensar o propósito da minha visita ? Reconhece essa chave ?
– Que diabos é essa chave ?
– Quão ingênuo é você...essa chave é chave do lugar que você guardou toda sua racionalidade deixando sua mente livre para agir impulsivamente e você sabe que quando se age por impulso não se raciocina , não é mesmo ?
– Cale-se seu miserável , que diabos faz aqui , como entrou ?
– Pela porta , por onde mais teria entrado ? Eu lamento que meu encontro seja carregado de tamanha malquerença , mas é meu trabalho. A partir do momento que você deixou de lado sua capacidade de raciocinar você me deu total liberdade de retornar aqui e confesso que o único culpado é você.
– Eu deveria matar você agora , seu verme ignóbil!
– Tente , veja se consegue. - Disse em um tom desafiador.
Nesse momento tentei injuriar aquela figura que sentava-se diante de mim com uma garrafa que estava ao meu lado.
– Bela tentativa , eu confesso que você acaba de sujar meu terno novo , mas veja sua mão...está um pouco “suja” , não ?
Minha mão começou a sangrar e nesse momento eu ficava perplexo pois bati com a garrafa junto a ele.
– Ainda não consegue entender ?
– Entender o quê ? Diga !
– Eu sou você.
– Morra ! Maldito ! - Eu comecei a agredi-lo incessantemente , cada golpe que eu deferia com meus punhos e com os pedaços de vidro deixavam suas risadas maléficas cada vez mais enaltecidas.
– Ainda paira a incerteza ? Pois bem veja com seus próprios olhos. – Ele retirou a sua máscara e quando vi observava perplexo minha face diante de meus olhos , o sangue escorria pelas minhas mãos como um rio , gotas que caiam como uma chuva pingavam no chão, minhas mãos estavam cobertas de sangue e injuriadas , olhei meu tórax e percebi hematomas por toda parte , aquela aparição não estava mentindo , o maior medo que eu tinha era intrínseco , minha eterna e infeliz solidão.
– Você não tem como por um fim em mim. Terá de conviver comigo , sou seu carma , seu fantasma , sou seu maior medo ! - Exaltava-se a si mesmo.
Fiquei diante dele observando até que uma ideia mórbida e resoluta surgiu em minha cabeça , fruto de uma mente doentia e exasperada que havia abandonado a razão e agora não havia nada mais a perder.
– Quer saber...somos a mesma pessoa , não é mesmo ?
– De fato. - Dizia com um sorriso impudente.
– Então eu já sei como por um fim nisso tudo... Adeus.
Peguei um pedaço de vidro que encontrava-se ao chão e decidi cortar minha garganta , um corte profundo na minha jugular faria todo sofrimento que tenho vivido ultimamente terminar em alguns segundos , era a única maneira de por um fim nisso. Pergunto a mim mesmo se algum dia a felicidade , o júbilo , poderão entrar novamente pela porta que olho atentamente nesse derradeiro momento, estirado ao chão vendo meu sangue alastrar-se pelo assoalho do quarto vejo que a aparição começa a desfalecer aos poucos como um papel consumido pelo fogo que agora joga suas cinzas ao vento. Gostaria de apenas fazer uma última pergunta antes que eu perca minhas faculdades mentais : “Será que um dia voltarei a vê-la ? Se eu puder , quero lhe pedir desculpas... jamais deveria ter magoado você...jamais...” Neste quarto exíguo que encontro-me sinto asco quando olho pela última vez a janela e vejo meu reflexo, nele um rosto o qual sinto aversão , o meu rosto...
A cada momento que sinto o vazio se aproximando desse quarto tento apegar-me às minhas recordações numa ínfima esperança de poder ver aquele sorriso , por mais breve que o mesmo seja , é o que me resta.